Por que acreditar em Deus e não em Thor?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013





ZeusXThorNessa pergunta muito comum entre debates teísmo vs. (neo)-ateísmo, o adversário pergunta o motivo pelo qual optamos pelo monoteísmo ao invés da crença em alguma divindade politeísta.

A pergunta pode vir mais ou menos assim:
“Por que você acredita em Deus e não em Thor, Osíris, Rá e Afrodite?”
Embora exista uma “falha” na pergunta (é uma pergunta pessoal — “Por que você acredita…”) que não me permita responder por todos, vou, obviamente, argumentar no sentido de como eu responderia a tal questão.
Antes de tudo, por trás do nome, quem é “Deus”? Eu o defino como um ser pessoal, transcendental e necessário. Se ele é transcendental, então não tem atributos e características tipicamente físicas (como ter uma cabeça de falcão, barba vermelha ou usar uma cabeça de falcão); se ele é necessário em sua própria existência, então não pode ter passado a existir (como surgir do sêmen jogado no mar — você vai entender isso daqui a pouco, se ainda não entendeu).
Nós temos argumentos que INDICAM a existência de um ser com ESSAS CARACTERÍSTICAS de ser pessoal, transcendental e necessário (e não outras). São argumentos como o da Causa Primária, Cosmológico Kalam, o da Contingência, Moral, Ontológico, etc. Eu os considero racionais e com apelo; portanto, eu posso me justificar neles para acreditar em Deus.
Agora que já sabemos o que eu entendo por Deus e com que base posso justificar minha crença nele, vamos nos perguntar: e quem são Thor, Osíris, Rá e Afrodite?
Arranjei as definições (de forma bem resumida, só para passar a idéia) desses quatro deuses para a análise. Por exemplo:




Thor

Thor
Thor ou Tor (nórdico antigo: Þórr, inglês antigo: Þunor, alto alemão antigo: Donar) é o mais forte dentre deuses e homens, é um deus de cabelos vermelhos e barba, de grande estatura, representando a força da natureza (trovão) no paganismo germânico, disparando raios com o seu poderoso martelo Mjolnir. Ele é o filho de Odin, o deus supremo de Asgard, e de Jord (Fjorgyn) a deusa de Midgard (a Terra). Durante o Ragnarök, Thor matará e será morto por Jörmungandr. Thor também é chamado de Ásaþórr, Ökuþórr, Hlórriði e Véurr.




Osiris

Osíris
Osíris é, miticamente, a primeira de todas as múmias, dando assim justificativa à prática do embalsamamento. Ísis, sua esposa-irmã, opõe-se à catástrofe da sua morte com a prática da magia, o recurso da mumificação e a milagrosa concepção de Hórus.






Rá ou Ré é a principal divindade da mitologia egipcía, Rá é um deus com cabeça de falcão conhecido como o deus do sol, pela impôrtancia da luz na produção dos alimentos.




Afrodite

Afrodite
Afrodite (em grego, Αφροδίτη) era a deusa grega da beleza, do amor e da procriação. Possuía um cinturão, onde estavam todos os seus atrativos, que, certa vez, a deusa Hera, durante a Guerra de Tróia, pediu emprestado para encantar Zeus e favorecer os gregos. De acordo com o mito teogônico mais aceito, Afrodite nasceu quando Urano (pai dos titãs) foi castrado por seu filho Cronos, que atirou seus testículos ao mar, então o semêm de Urano caiu sobre o mar e formou ondas chamadas de (aphros), e desse fenomeno nasceu Aphroditê (“espuma do mar”), que foi levada por Zéfiro para Chipre. (…) Como vingança e punição, Zeus fê-la casar-se com Hefesto, (segundo Homero, Afrodite e Hefesto se amavam, mas pela falta de atenção, Afrodite começou a trair o marido para melhor valorizá-la) que usou toda sua perícia para cobri-la com as melhores jóias do mundo, inclusive um cinto mágico do mais fino ouro, entrelaçado com filigranas mágicas. Isso não foi muito sábio de sua parte, uma vez que quando Afrodite usava esse cinto mágico, ninguém conseguia resistir a seus encantos.
Podemos ver quais as características desses deuses; são todos seres com características físicas limitadas (destacadas nos trechos — como ter barba, cabeça de falcão, ter uma esposa-irmã, etc) e que não são necessários (Afrodite, por exemplo nasceu do sêmen de Urano jogado no mar — definição que seria simplesmente inconcebível para Deus!).
Essas quatro divindades são diferentes da divindade Deus? Acho que está claro que, conceitualmente, são. Assim, os argumentos para Deus não podem se aplicar a eles.
Mas que argumentos nós temos para a existência de uma “primeira múmia” ou para um sujeito com um martelo mágico que controla ou dispara os raios? Bom, eu não ouvi nenhum.
Então, esta aí a diferença: Deus é um ser transcendental, pessoal e necessário para qual temos argumentos a favor. Já os outros são seres contingentes, físicos e “arbitrários” para qual NÃO temos argumentos a favor.
Logo, temos argumentos para acreditar na existência de Deus, que é um ser diferente da existência de Thor, Osíris, Rá e Afrodite, que precisariam de argumentos próprios e que, na verdade, parece que não temos. Deste modo, eu posso dizer por qual motivo dou preferência a Deus aos outros seres diferentes dele.
A conversa pode continuar assim: “Mas eu discordo dessa visão. Eu acredito que Thor não é um ser físico com um martelo. Na minha opinião, Thor é o nome de um ser que está além do nosso Universo e que é necessário em sua existência.”
Essa é uma variação do que foi explicado na técnica “Por que não o Monstro do Espaguete Voador?”. Se você passar a definir Thor como transcendente e necessário, então, tudo bem, nós passamos a falar do MESMO ser! Um ser não se define pelo nome de fantasia que damos a ele — mas pelas características conceituais objetivas de quem se fala. Se você igualou a descrição de Thor à descrição de Deus, então agora estamos falando da mesma coisa, mas apenas com nomes diferentes — sendo o nome um detalhe irrelevante para a discussão”. Como eu falei naquele mesmo artigo:
A moral da história é: por mais que se queria dar algum outro nome besta qualquer, como Monstro do Espaguete Voador, Mamãe Ganso ou Unicórnio Rosa Invisível, se estivermos falando de seres com as MESMAS características OBJETIVAS… então estamos falando… do mesmo ser!
Talvez ele ainda tente no final: “Ok, mas mesmo assim pode ser tanto Allah quanto Deus. E agora?” Essa é a técnica “Qual Deus?”. “Deus”, “Allah” e “Javé” são três palavras diferentes que se referem ao MESMO ser. São todos o que se comumente se entende por “Deus” (nome próprio) — Allah é até a palavra que os arábes usam para Deus, como “God” em inglês ou “Dios” em espanhol. Então não há diferença alguma entre eles.
E, não, o fato de existirem três revelações (ou mais) diferentes não o fazem serem “deuses” diferentes. Nós temos que fazer duas perguntas para qualquer religião:
(a) A divindade de qual essa religião fala existe?
(b) Se existe, a forma que ela se revelou/a forma de se fazer o “religamento” com ela, tal qual alegado por essa religião, é verdadeira?



Torah

Cristãos, muçulmanos, judeus e deístas concordam no tópico (a) (e os argumentos citados por mim no início servem para dar suporte — inicial, ao menos — para o item (a) apenas). O que eles discordam por qual forma certa ou válida Deus se revelou — seja na Torah, seja por Jesus Cristo, seja por Maomé ou seja em nenhuma dessas opções (caso aceito pelos deístas).
E o fato de discordarem sobre como Deus se manifestou ou como Deus agiu na história NÃO os faz falarem sobre um “Deus” diferente. Se adotassemos esse critério, então teríamos que dizer que a cada biografia que traz um perfil diferente de um biografado está se referindo a OUTRA pessoa — quando, na verdade, assim como no caso das revelações, pode ser simplesmente que eles concordem sobre quem estão falando, mas alguns dos biógrafos esteja com uma interpretação falsa ou distorcida da existência dessa pessoa biografada.
Enfim, uma refutação poderia ir assim:
FORISTA: Por que você acredita em Deus e não em Thor, Osíris, Rá ou Afrodite? São todos mitológicos igualmente.
REFUTADOR: Eu posso dar razões para acreditar em Deus. Existem argumentos, como o Cosmológico, Fine Tunning e Moral que apontam para a existência de Deus. Por isso, Ele é diferente das divindades politeístas.
FORISTA: Mas para os fiéis, Krishna e Rá são seu “Deus”. Eles poderiam usar esses argumentos também, portanto.
REFUTADOR: Não, não poderiam. Krishna e Rá são seres contingentes, não transcendentes. Para ser Deus, é preciso ser um ser transcendental à matéria, muito poderoso e outros atributos que você pode ler conforme definido pelos filósofos nessas argumentações. Se tiver todos esses, então, você pode chamar de “Deus” ou de “Zé da Esquina”, pois vamos estar falando objetivamente do mesmo ser.
FORISTA: Hmmm… Mas você não pode indicar o Deus cristão por isso. Eles servem também para aqueles que chamam de Allah e como eles tem nomes diferentes, então são Deuses diferentes.
REFUTADOR: Non-sense. Se fosse pelo seu critério de nomes, ao dar um apelido para alguém eu estaria formando uma nova pessoa. É o mesmo Deus com uma interpretação focada em uma base diferente. (Ah sim: Allah é a palavra deles para “Deus”, assim como “God” nos Estados Unidos).
FORISTA: Afirmar que qualquer Deus é o mesmo é crença sua sim. Ponto final.
REFUTADOR: Você não argumenta, só chega aqui e diz que “é crença sim”, por decreto. Mas vá lá. Não existe “qualquer Deus”. Deus é um nome próprio, que se refere a uma divindade específica. Assim como não existe “qualquer Thor” ou “qualquer Poseidon”… são nomes próprios que se referem a um tipo específico de ser.
[E por aí vai…]
Conclusão
Para refutar este argumento, basta citar os argumentos a favor da existência de Deus e diferenciá-lo dos outros deuses e divindades parelelas.

Vi este texto na fanpage William Lane Craig (Brasil)



É errado ser carnívoro?

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Onívoros X Vegetarianos

Encontrei Tiago*, que é ateu e vegetariano. Num dado momento comecei a questionar o seguinte:
“Sabe Tiago, às vezes tento entender os vegetarianos e veganistas. Entendo que há pessoas que precisam ser vegetarianas por questões de saúde, mas estes eu entendo.
A combinação que busco entender é a sua, a do vegetarianismo/veganismo+ateísmo. Ou seja, ateus vegetarianos/veganos, me parece que você é daqueles extremistas e politicamente correto. Tudo bem, mas acredito que você deveria ser no mínimo teísta. Calma, posso explicar os argumentos que me levaram a pensar isso. rs
Aí ele me disse: Rodrigo,tô calmo mano. rs Que legal me perguntar isso, na verdade é simples como amarrar um tênis. Acho que posso te mostrar meus argumentos.
Bom, minhas premissas de forma bem resumidas são:
P1 — Os animais são mantidos pelos homens em cativeiros para comermos, isso é errado;
P2 — Homens vegetarianos não são cúmplices de tal atrocidade;
Logo, os homens que comem animais estão errados, pois são cúmplices de tal atrocidades.

Antes de continuar o diálogo neste post, gostaria de abrir um parenteses:
“Para que o raciocínio seja verdadeiro, não basta que as premissas e a conclusão sejam verdadeiras. É preciso que seja impossível que sendo as premissas verdadeiras, a conclusão seja falsa.
Assim podemos ter:
Argumentos válidos, com premissas verdadeiras e conclusão verdadeira;
Argumentos válidos, com premissas falsas e conclusão falsa;
Argumentos válidos, com premissas falsas e conclusão verdadeira;
Argumentos inválidos, com premissas verdadeiras e conclusão verdadeira;
Argumentos inválidos, com premissas verdadeiras e conclusão falsa;
Argumentos inválidos, com premissas falsas e conclusão falsa; e
Argumentos inválidos, com premissas falsas e conclusão verdadeira.
Mas não podemos ter:
Argumentos válidos, com premissas verdadeiras e conclusão falsa.
(…)
Lisa Simpson vegetariana
Então, podemos ter argumentos válidos com conclusão falsa (se pelo menos uma das premissas for falsa). Em filosofia pretendemos chegar a conclusões verdadeiras. Por isso, precisamos de argumentos sólidos.
Um argumento sólido é um argumento válido com premissas verdadeiras. Um argumento sólido não pode ter conclusão falsa, pois, por definição, é válido e tem premissas verdadeiras; ora, a validade exclui a possibilidade de se ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.”
Voltando…

Legal Tiago! Tenho as seguintes premissas para contra argumentar, na verdade levar seu raciocínio às últimas consequências:
P1 — Existem animais que comem carne, pois faz parte de sua natureza;
P2 — Homens são animais;
P3 — A natureza é neutra moralmente.
Logo, homens comem carne porque faz parte da natureza e isto não os faz errados moralmente, pois a natureza é neutra.
Dito isto, vamos analisar as suas premissas vegetarianas, vamos mais a fundo.
P1 — Os animais são mantidos pelos homens em cativeiros para comermos, isto é errado;
Sim, há homens que mantém animais em cativeiro para nos alimentar e as vezes nos vestir. Porém há uma afirmação que diz “isto é errado”, para que esse pedaço seja verdadeiro devemos definir o que é errado. Pois a premissa 1 dos vegetarianos (V) está confrontando com minha premissa 3, (O).
V: Vegetariano
O: Onívoro
Qual premissa é verdadeira? P1(V) ou P3(O)?
P1(V) — Os animais são mantidos pelos homens em cativeiros para comermos, isso é errado;
P3(O) — A natureza é neutra moralmente
.
Onde está baseado nossa moral? Na natureza?
As premissas não podem ser amigas, porque uma alega o ser errado e a outra alega a neutralidade moral da natureza. Se você é um naturalista, então temos sérios problemas em última análise.
Para explicar melhor, gostaria de te fazer algumas perguntas para levar às consequências extremas da sua argumentação.
Se comer animais é errado, o que diremos de animais carnívoros? Porque nossa moral não se aplica a eles? Porque estaríamos errados em comermos carne? Qual o problema de manter cativeiro os animais? Cada animal não usa suas armas (seja garras ou cérebro) para a caça? Então o que nos faz acreditar que isto é errado?
Talvez o raciocínio seja de não fazer com os outros o que não gostaria que fizessem com você. Mas esse raciocínio não se aplica para seres irracionais carnívoros, pois eles precisam comer carne para viver e não tem uma consciência analítica do altruísmo ou empatia.
Acredito ser complicado afirmar que pela natureza podemos descobrir o que é certo ou errado, pois quem disse que nossa vida vale mais do que das formigas? Ou das abelhas? Porque a moral humana é a certa e a das abelhas não? Ou da viúva negra? Ou do tubarão? Ora, as abelhas matam suas filhas férteis; o tubarão força a copulação com sua fêmea; a viúva negra é viúva porque mata seu “marido”; E vários outros exemplos poderiam ser citados. Então, porque nossa natureza moral é superior em relação a cada espécie?
Conseguinte, deve-se concluir que a natureza é neutra moralmente.
E o que nos faz entender o que é certo ou errado? Porque o Nazismo foi errado?
Segura!! Digo que a noção para o que é certo, errado, bem e mal vem do senso do divino, ou sensus divinitatis, como alguns filósofos chamariam. É a Imago Dei impressa na nossa mente.
Se você é ateu, deve estar se perguntando em como cheguei nessa lógica bizarra. Vou explicar, claro.
Acrescento, que, valores e objetivos morais existem e se Deus não existe, não há razão para que valores e objetivos morais sejam cumpridos. Pois na ausência Dele, a moral e os deveres passam a ser subjetivos, nos impossibilitando de dizer o que é certo e errado.
Se não creio na existência de Deus, então os valores e deveres morais são relativos, por isso posso comer carne e não tenho o direito de dizer que é moralmente errado quem come vegetal (muito menos que o nazismo, por exemplo, foi errado).
Ora, se a P2(V), que diz “Homens vegetarianos não são cúmplices de tal atrocidade”, não posso concluir que é uma atrocidade, pois a moral é relativa e neutra, ou seja, um vegetariano ateu não pode dizer que é errado comer carne, uma vez que ele não crê em valores e deveres morais objetivos (que não depende da opinião de ninguém para ser verdade).
Se o vegetariano crê que seja errado comer carne e que todos deviam aderir ao movimento deles, eles estariam apelando para os valores e deveres morais objetivos. Para que eu aceite isso, ele deve me convencer que há deveres e valores morais objetivos a serem cumpridos, ou seja, que a verdade deles seja verdade independentemente de nossa opinião.
Resumindo minhas novas premissas:
  1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem;
  2. Valores e deveres morais objetivos existem;
    Portanto, Deus existe.
Em suma, acredito que um vegetariano que realmente pensou sobre a questão deveria ser no mínimo teísta.
“Considere então a hipótese de que Deus existe. Em primeiro lugar, se Deus existe, valores morais objetivos existem. Dizer que existem valores morais objetivos é afirmar que algo é bom ou mau independentemente de alguém acreditar que isso seja verdadeiro. É afirmar, por exemplo, que anti-semitismo nazista é moralmente errado, mesmo que os nazistas que realizaram o Holocausto pensassem que isso fosse bom; e continuaria a ser errado mesmo que os nazistas tivessem ganho a Segunda Guerra Mundial e exterminado ou tivessem feito lavagem cerebral em todos que discordassem deles.”
Para saber mais deste assunto sobre valores e deveres:
http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/index.php?pagina=1078177828
Recapitulando, nós fomos de vegetarianismo ao senso de moral do ser humano, que nos diz sobre valores e deveres,ou seja,certo e errado, bom e mau.
Neste caso Tiago, creio que levando seus argumentos, o de um ateu naturalista e relativista à últimas consequências,veremos que você tem vários problemas filosóficos para encarar e responder.
E a conversa rendeu.

*personagem e diálogo fictício