Certo e Errado

sexta-feira, 20 de setembro de 2013



O feitiço virou contra o feiticeiro
Vi no Um Sábado Qualquer compartilhado de Mundo Avesso


Talvez você não tenha percebido, mas essa imagem fala muito mais a favor de quem crê em Deus de forma exclusiva do que contra.
Acreditar em Deus de forma exclusiva quer dizer que sua ideologia é a exclusivamente correta.
Mas não é simples chegar a essa conclusão. Há uma grande construção de argumentos que leva a essa conclusão.
Vou resumir o que interessa para esse post.
A cosmovisão cristã diz em vários trechos bíblicos que ela tem a verdade e etc, por exemplo: “Eu sou o caminho, a verdade, a vida e ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Disse Jesus Cristo”
Este é um verso que resume bem esta ideia. Jesus, ao dizer isto está negando qualquer outro meio para Deus a não ser por ele mesmo.
No fim, o que um indivíduo de cosmovisão cristã quer dizer é que há verdade absoluta. Se uma verdade é mentira em outra cultura, então não deve ser considerada verdade, pois uma verdade deve ser verdade em qualquer lugar, ela não pode depender de nossa opinião. Há verdades objetivas. Logo, valores e deveres morais objetivos existem e estão fundamentados em Deus (por ele ser imutável e por ele ser o bem em toda sua essência).
Vamos por partes…
Primeiro devemos tentar entender a intenção do desenhista.
Talvez ele apenas esteja protestando em como a violência contra culturas diferentes ocorrem.
Mas eu vi uma página neoateísta postando esta imagem, bom, partindo pelo pressuposto que seja uma mensagem neoateísta, vejo que se converteram à filosofia da cosmovisão cristã (que diz que há valores e deveres morais objetivos a serem cumpridos e estão fundamentados em Deus), ou simplesmente não pensaram a fundo sobre a questão. Particulamente acredito que só não pensaram muito a respeito.
Objetivo quer dizer que não depende da opinião de ninguém para que seja certo ou errado (deveres), ou bom e mau (valores).
Subjetivo quer dizer que depende da opinião de alguém.
Os quadros são claros, pois o triângulo diz ser o certo e o círculo errado. Em outra cultura não é bem assim, o triângulo é o certo e o círculo é errado.
Mas agora vem a parte mais sensacional da charge.
O último quadro mostra as duas culturas se pegando em meio a sangue e violência, uma guerra.
Agora me pergunto: O que o desenhista acha do último quadro? É certo ou errado aquela violência?
Se ele disser que é errado, então concorda com a visão de que valores e deveres morais objetivos existem. E estes exigem a existência de Deus, logo Deus existe.
Aqui estamos entrando numa filosofia que Plantinga e João Calvino explicaram há alguns séculos atrás, dando o nome de Sensus Divinitatis (Senso do divino). Mas eles não tiraram do nada essa ideia do senso do divino que nos diz o que é certo ou errado, bom ou mal. Eles tiraram desse texto milenar:
“Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus corações, para a degradação dos seus corpos entre si. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém.”
Só para contextualizar, Paulo, ex-perseguidor dos cristãos, escreveu isto aos cristãos Romanos, não muito distante da morte e ressurreição de Cristo. Próximo a 65 anos após este evento, ou seja, as testemunhas de Cristo ainda estavam vivas. Mas isso é outro debate.
Resumindo, os atributos invisíveis de Deus são vistos claramente na natureza e quem não crê é indesculpável no momento em que o Criador trocar uma ideia com ateus perguntando “qual a razão para não crer que eu existo? Acaso estavam cegos?”.
Agora, se o autor dos quadrinhos dizer que de acordo com nossa cultura é errado, mas que para outra realmente talvez não seja, ele estará concordando que os valores e deveres morais são subjetivos, pois dependem da minha e sua opinião. Com isso não podemos dizer que o nazismo foi errado, estupro, roubar, mentir e etc. Não conseguimos dizer que isso é errado e aquilo é certo baseando na opinião de alguém, pois somos falhos e não somos tão confiáveis assim.
Ou aquilo é verdade ou é aquilo outro que é. A verdade deve ser verdade em qualquer lugar, pois só assim é verdade. Se eu descobrir a lei da gravidade da Terra aqui no Brasil, o cara lá na China tem que descobrir a mesma lei e assim vemos que é verdade. Posso não acreditar na lei da gravidade, mas ela continua ser verdade independentemente de minha opinião, por isso não é uma verdade subjetiva e sim objetiva.
Ao afirmar que a verdade é relativa, pressupõe-se um pensamento de que isto é uma verdade absoluta para aceitar. Assim como dizer que uma religião não pode ser particularista, pois estaria sendo arrogante, mas o argumento se exclui, pois ele fere a mesma lógica. Por que devo ser pluralista? Só eles estão certos? Cadê a “tolerância”? Ai ai, nos é imposto a “verdade absoluta” da verdade relativa.
Daí se vc diz que a verdade é absoluta e que o cristianismo é o único caminho, te chamam de arrogante, egoísta, intolerante e etc.
Quando um argumento apela para o caráter do oponente quer dizer que ele está fugindo de responder se a questão é verdadeira ou não.
Newton poderia ser um cara arrogante ou um cara simpático, no entanto a personalidade dele não interfere na veracidade da questão, ou seja, de suas descobertas. Este tipo de argumento que tenta invalidar a questão pelo caráter os filósofos chamam de falácia ad hominem.
A questão não é se é arrogante ou não, é se a questão é verdade ou não. Não importa o caráter da pessoa ou de um grupo de pessoas. Alguém que quer procurar a verdade sinceramente deveria ter isso em mente.
Às vezes, quem não quer procurar a verdade sinceramente, apela para falácia ad hominem, pois “…os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos (…)” fogem da questão sem se importar em verificar o quanto verdadeiro é ou não a questão, comentem várias falácias e constroem argumentos que se excluem.
Meio que assim:
A personagem A diz: Descobri que a água conduz eletricidade. e o B diz: Seu intolerante, arrogante, isso é relativo, não creio nisso, logo vc não pode está com a razão. o A diz: Tá, mas é verdade ou não é?
Estão vendo a desonestidade na argumentação e do raciocínio?
Agora, antes de alguém tentar contra argumentar de forma reducionista(que também é uma falácia para fugir da questão) este post, aqui estão as premissas por trás de minha argumentação.
1-Se Deus não existe, também não existem valores morais objetivos nem deveres;
2-Valores morais objetivos e obrigações existem;
Logo, Deus existe.

Abraços,
Rodrigo Maia