O hotel, a torre e o quarto | A.V. 5

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

(Autor: Rodrigo Maia)
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Terminei de atravessar a ponte e cheguei em um bairro chamado Estação. Acho que tinha esse nome por causa da estação e da maria fumaça que tinha no fim da rua.

Era uma rua bem larga dividida em outras três por uns canteiros de grandes árvores. Alguns canteiros tinham uma mão de pedra gigante parecendo proteger aquela fileira de árvores.

Fui seguindo as placas até chegar em uma rua que era paralela ao trilho da Maria Fumaça. No finzinho da tarde chuvosa, logo vi uma torre bem alta encoberta por nuvens, vi também a entrada para o hotel. Limpei os pés, fechei o guarda-chuva e logo entrei no hotel, que era aparentemente normal. Estava com cheiro de grama molhada lá dentro, tinha também algumas plantas, um chão xadrez, mas eram losangos ao invés de quadrados. O teto era bem alto e tinha uma escada de madeira bem grossa. Tinha também um mural com eventos, fotos e cartaz. Fui ao recepcionista vestido de vermelho com um chapéuzinho engraçado perguntar como era o pagamento, preços e afins.

O recepcionista me cumprimentou e tirou de baixo do balcão uma tabela de preços. Vi vários preços parecidos, mas no segundo andar tinha um quarto absurdamente barato. Perguntei se o preço estava certo, e ele me respondeu: -Claro!

Eu: -Mas porque esse é tão barato?

O recepcionista pegou o óculos que estava pendurado no pescoço, olhou franzindo a testa e apontando o dedo na tabela me respondeu: -O senhor já viu esses outros quartos do mesmo andar? Estão com preços ótimos.

Bom, como não sou um cara rico, respondi: -Acho que vou querer esse quarto barato mesmo.

Aí meio assustado, o recepcionista me disse: -Acredite em mim. Não vai querer ficar lá.

Bom, pera aí? Desde quando um hotel nega um quarto pro seu cliente? Só se esse recepcionista for um sabotador contratado pela concorrência. Pensei isso e logo perguntei porque eu não iria querer esse lugar, e ele olhando pra mim com o óculos escorregando pelo nariz me disse: -Posso te contar vários relatos de hóspedes que passaram a noite lá.

Em meio ao som da chuva e clarões de relâmpagos, pensei comigo: -hmmm deve ser coisa desses hotéis de cidade turística..

Falei para ele que não precisava contar porque eu iria ficar ali mesmo, no quarto barato. O engraçado é que quando falei isso deu uma trovoada forte. Parecia coisa de terror. Pensei comigo: Nó! Nunca mais... (rs)

O recepcionista pega a chave empoeirada daquele quarto  e respira bem fundo como quando alguém prepara para dar um discurso. É, ele parecia bem afim de contar as histórias.
... eles podiam ouvir risadas de crianças, mas os relatos mais antigos dizem ter ouvido um choro de um bebê.
Bom, ele me disse a história de uma bela jovem ruiva vestida com algo que parecia uma camisola que aparecia no segundo andar pedindo ajuda para tirá-la de lá, porque o pai dela precisava lembrar quem ela era. Depois disso ela desaparecia. O recepcionista me disse que isso tem se repetido nos últimos 10 ou 15 anos, não me lembro. Antes disso, eles podiam ouvir risadas de crianças, mas os relatos mais antigos dizem ter ouvido um choro de um bebê.

-Ah e também já ouviram som de espadas, gritos e...

Interrompi o recepcionista dizendo: - Errr.. estou um pouco cansado moço. Acho que não vou ver nada de tão cansado que estou. Por favor, me dê a chave desse quarto.

Poxa, para minha surpresa ele silenciou e me deu a chave sem alterar o preço, ou seja, de fato o preço daquele quarto era barato.

Virei e me deparei com um hóspede que me disse logo: -Você não tá achando que é um mito para atrair turistas, está?

Respondi meio sem graça para aquele hóspede asiático de olhos puxados: -Hmmm, eu acho que sim...

O asiático me disse com uma convicção com um tom de fanático, como se estivesse defendendo um herói de gibis: -Não! Se fosse um mito ele não cobraria tão barato.. eu desisti de aluga-lo quando pensei nisso...

Eu: -Mas eu estou cansado, já estou vendo coisas desde a ponte desse bairro...

Um hóspede mais idoso gritou: -Zé menininho? É ele que você viu?

Eu virei e vi um velhinho andando bem engraçado com uma bengala em minha direção de chapéu dos anos 50 com um óculos fundo de garrafa e virando lhe disse: -Zé quem?

Velho da bengala: -É! Quando a gente vê ele embaixo da ponte, ele pula no rio.

Eu: -Não! O que eu vi era bem mai..

Ops! O que eu to fazendo? Eu não deveria ter comentado isso, porque eu até então estava cético. Não acredito que eu ia falar que vi um monstro gigante. ¬¬

Mas quando pensei gigante, alguém falou a mesma palavra enquanto pensava. Era uma senhorinha de cadeira de rodas sendo empurrada por uma garotinha pelo corredor.

Senhorinha: -Você viu só essa criatura, mais nada junto com ela?

Fiz uma cara de ‘hã’ e ‘não é possível’...

Senhorinha: Quando o vi, vi logo em seguida um grande navio passando por cima da ponte...

Logo chega uma mulher tomando o lugar da garotinha dizendo: -Já chega mamãe, deixa o moço em paz, depois você conta suas lendas.

E foi empurrando a senhorinha que tentando virar para trás gritou para mim: -Meu marido está naquele navio! Eu ouvi ele me chamar de lá! Era ele! Era ele! Era ele!

Olhei para os outros perto e todos estavam com uma cara espantada. Pedi licença para todos e peguei meu guarda-chuva com minha mochila para subir as escadas. Quando me virei senti algo agarrando minha perna e: -Ueeei!!

Levei um susto meio tímido, mas quando vi era a garota que empurrava a senhorinha. Ela deu uma risada por causa do meu susto e fiquei mais tranquilo em ver aquele sorriso de criança com alguns dentes crescendo e outros faltando. Ela me disse: - Minha vó disse para dar isso pra quem fosse dormir no quarto 203, que um dia você iria entender.

Eu vi que era um colar com um pingente com fotos. Não tinha como falar não para aquela garotinha, então agradeci e peguei o colar. Assim que peguei, ela saiu correndo toda espoleta para trás da perna da mãe com a mão na boca olhando timidamente para mim. Em seguida vi a avó de cadeira de rodas que chegava perto dela para fazer um cafuné.

Olhei para o colar, guardei na mochila e respirei dando aquela olhada pra cima com cara de ‘ai ai’. Comecei a subir a escada e ainda ouvi alguém gritar: -Boa sorte!

Eu agradeci sem ver quem era e continuei subindo.

Cheguei pelo corredor escuro ao temível quarto 203.

Continua...

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Episódios
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