A moça do quarto 203 | A. V. 6

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

(Autor: Rodrigo Maia)

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Cheguei pelo corredor escuro ao temível quarto 203.

Desconfiado, abri lentamente a porta. Vai saber né?
Acendi a luz e fiz um “grhum- grhum” com a garganta, para me certificar se havia alguém lá.
Senti o ar meio pesado...
Calma, sou alérgico, lembra?
O ar estava mofado e parecia que ninguém limpava lá há anos. Logo escutei um som de gota caindo, fui devagar para o banheiro e acendi a luz do banheiro como se o interruptor estivesse quente. Vi a torneira pingando e fechei-a. Se eu fosse você iria ver a torneira do seu banheiro agora.


Brincadeiras à parte ...

O mais interessante é que mesmo cético eu me pegava querendo acreditar em algo.

Bom, dei uma sopradinha nos móveis, empurrei a poeira com a mão e sentei na cama. Abri minha mochila, tirei as pilhas da minha câmera e coloquei na tomada pra carregar.
“Droga! Eles têm o interruptor novo aqui.. cadê o adaptador... hmmmm”

Depois troquei de roupa, coloquei o celular em cima do criado, peguei meu diário de bordo pra escrever tudo isso que estou escrevendo e me deitei com as mãos atrás da cabeça. Comecei a lembrar da caminhada que tive pra chegar até aqui no hotel. Foi bem interessante. Fiquei rindo internamente e pensei nas coisas que vi e ouvi: “Ai, ai... Até parece!”... ATCHIM!

É, o ar estava realmente com cheiro de mofo. Logo peguei no sono e tive um sonho.


...


O Sonho


Comecei a sonhar. Parecia manhã. Abri meus olhos e tudo estava bem claro e embaçado, até que foi tomando forma. Logo senti cheiro de água com sal, aquele cheiro que sentimos quando vamos para o litoral. É um ar diferente. Sentei-me num chão que era de madeira e rangia muito. Percebi que o chão estava balançando bem lentamente. Logo entendi que estava num navio.
Era um navio bem rústico, mas infelizmente não me lembro de muitos detalhes. No navio havia uns insetos que nunca tinha visto. Lembrava um pouco uma joaninha com alguns detalhes a mais nas costas. Nos seus olhos tinha um tipo de pedra com oito lados que também nunca vi; um verde meio fosco, mas alguns cantos da pedra brilhavam como se não fosse fosco.

Fiquei olhando para os insetos e o som deles estava aumentando gradativamente, tinha insetos andando e voando, era como o som do bater de asas dos pardais quando disparam a voar do nada, um som de metais pequenos batendo no chão, como perninhas de insetos e tive a impressão de ouvir uns pequenos gemidos como de morcegos dentro de uma caverna.
Saquei minha câmera e comecei a tirar fotos desses insetos naquele navio rústico. De repente uma neblina de cor rosa ou roxo (não me lembro) tomou conta do navio.

E ouvi um outro som no meio da neblina. Olhei para a janelinha do convés e vi que parecia ser uma bela moça que estava lá. Ela parecia me pedir ajuda. Não lembro suas palavras, mas ela estava tão longe de mim que parecia sussurrar em meu ouvido. Era como um sussurro junto de eco misturado com os sons dos insetos. Comecei a imaginar no porque dela estar pedindo ajuda.

Bom, deixa eu abrir um parênteses aqui. Toda vez que sonho e começo a pensar no sonho, o meu pensamento logo vira real. Bom, essa é a explicação que me dei no fim deste sonho.

Voltando...

Pensei: “Será que ela se escondeu de algum monstro marinho gigante?”
Puxa pra quê, né? Quando pensei nisso no meio do nevoeiro eu vi um enorme vulto vindo de trás do navio, atrás do convés. O vulto foi ficando nítido e vi que era uma grande boca de um tipo de monstro marinho. O monstro foi se aproximando e o navio foi entrando em sua boca junto com todos. Eu gritei, mas não saía som. Corri, mas era em câmera lenta, mas parecia que estava no mesmo lugar sempre. Tudo foi escurecendo, olhei para cima e via a boca do monstro nos cobrindo... “Preciso sair daqui! Preciso sair daqui! Preciso sair daquiiiiii!”

...


Acordei! Ufa! Com os olhos arregalados, olhando pro teto escuro do quarto 203, me conformava por pensamento: “Foi um sonho? Ééé.. foi um sonho.. que bom.”

Fui cerrando os olhos de novo, mas não cerrei totalmente porque eu estava olhando para um feixe de luz roxo no teto e meus olhos focaram em umas poeirinhas luminosas meio rosa na frente do feixe de luz. A poeirinha e o feixe de luz tinham um trajeto em comum, fui olhando pra ver de onde vinham e vi que vinham da minha cama, ou melhor, debaixo dela (pelo menos o feixe de luz eu tinha mais certeza).

Imaginei que fosse o celular, então me inclinei para ver em baixo da cama o que era aquela luz. Quando comecei inclinar escutei um sussurro bem próximo e sem ecos me dizendo: “Vai me ajudar?”

Mano! Foi aí que dei um grito e saí correndo com o lençol que me cobria pro corredor. Não sei como abri a porta tão rápido. Ainda meio cético, fui olhar na fechadura pensando que deve ser coisa da minha cabeça. Olhei na fechadura e ouvi um som de porta batendo vindo debaixo da cama, ao mesmo tempo que a porta bateu, a luz se acabou. Levei um susto mais discreto e me virei, encostando-me na parede do corredor. Pensei em chamar alguém do hotel, mas meu orgulho falou mais alto e resolvi entrar no quarto novamente.
Quando entrei vi meu celular no chão aceso. Aí aliviei... “Poxa, tô cansado mesmo... Era apenas o meu celular no chão.”

Bom, a partir daí dormi mais tranquilo.




Fui acordando no dia seguinte ao som de pássaros, cavalos andando na rua, sino da Maria Fumaça junto de sua sirene nada escandalosa. E acordando fui falando com a voz meio grogue: “Era só o celular no chão... celular no chão...”

Rapidamente me levantei assustado e não lembro se disse ou se pensei: “O quê? Eu deixei o celular em cima do criado!” Confuso fiquei pensando: “Ah não... isso é demais!”

Peguei minhas coisas para cair fora dali... “Até onde vai o bom senso dessas pessoas para manter o turismo?”

Fui socando as coisas na minha mochila, quando parei para olhar para janela. Vi algo que nunca tinha visto na minha vida, assim pessoalmente. Estava tão fácil assim na frente da minha janela algo tão belo e raro.

Continua...

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Episódios
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